Modelo baseado em saberes ancestrais e na redistribuição de poder é a chave para superar desigualdades estruturais e alcançar desenvolvimento justo e inclusivo
Celebrar o Dia do Empreendedorismo Negro é, antes de tudo, reconhecer a potência de milhões de empreendedores e empreendedoras negras que todos os dias movimentam a economia, geram renda, fortalecem territórios e ressignificam identidades.
Só no Brasil, micro e pequenos negócios respondem por 30% do PIB (Produto Interno Bruto) e mais da metade dos empregos formais. Mais de 52% desses empreendimentos são liderados por pessoas negras. Os números são expressivos, mas escondem uma contradição: tanta representatividade não se traduz ainda em prosperidade justa, nem em condições estruturais de crescimento.
É nesse ponto que precisamos romper com a velha lógica econômica. O capitalismo tal como conhecemos concentra, exclui e naturaliza desigualdades.
Estamos propondo uma nova perspectiva, a economia preta, que ao contrário, nasce da experiência e dos saberes ancestrais do matriarcado negro: uma racionalidade voltada à redistribuição, à sustentabilidade social, ambiental e econômica e à cooperação como forma de prosperidade coletiva.
Não é só sobre empreender. É sobre desenhar outro modelo de desenvolvimento, que devolve protagonismo a quem foi historicamente marginalizado e que propõe novas formas de produzir, consumir e partilhar riqueza. Essa visão já pulsa nos setores mais diversos: da moda à tecnologia, da gastronomia à educação. Quando uma empreendedora negra cria, ela não oferece apenas um produto ou serviço.
Ela reafirma uma história, uma estética, um repertório de mundo. E, ao fazer isso, desloca as fronteiras do possível. O Instituto Feira Preta, ao longo de mais de 20 anos, tem sido uma plataforma para consolidar essa virada. Mais de 10 mil empreendedores negros já foram apoiados com formação, crédito, mentorias, redes de conexão e abertura de mercados.
Em 2024, foram mais de 5.000 horas de capacitação em gestão, marketing, tecnologia e liderança, além de R$ 2 milhões investidos diretamente em bolsas, serviços e crédito para empreendedores. E a metodologia que integra ancestralidade, identidade e estratégia já está sendo replicada em países da América Latina e na África, ampliando o alcance dessa revolução.
Mas os obstáculos seguem gigantes. Nossa pesquisa “Empreendedores Negros na América Latina” mostrou que 44% dos pedidos de financiamento feitos por empreendedores negros são negados, contra 29% dos brancos.
Muitos recorrem ao crédito informal com familiares e amigos, o que limita o crescimento e aumenta a vulnerabilidade. Além disso, a falta de produtos financeiros adaptados faz com que 64% misturem finanças pessoais e empresariais na mesma conta. O sistema financeiro ainda não entendeu —ou não quis entender— o que a economia preta pede.
Por isso, este Dia do Afroempreendedorismo não é apenas uma efeméride. É um ato político. Precisamos dizer em alto e bom som: a economia preta não é nicho, é futuro. Para escalar seu impacto, é indispensável que o setor público, instituições financeiras e empresas se comprometam a criar linhas de crédito com recorte racial e de gênero, abrir cadeias produtivas e investir em inovação e tecnologia para negócios liderados por negros.
A economia preta é um projeto de redistribuição de poder e reparação histórica. É a possibilidade de reinventar a própria ideia de desenvolvimento. Se quisermos um país verdadeiramente democrático e próspero, precisamos não só celebrar os empreendedores negros hoje, mas garantir que esse futuro seja possível todos os dias.